Eu te entendo, Vidas Secas

Ainda que seja um livro de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores brasileiros, alguns leitores repudiam sem conhecer seu contexto. Então falta amor e interpretação de textos. Falta o contrário.

Para Amar qualquer algo é preciso ter com tal uma história de amor. Amar sem compreender é abraçar o leão na jaula não sabendo que ele vai te comer. Ela não é sem consciência embora seja incondicional visto que tem causa e efeito. Eu tive minha coleção de amores na vida – um deles era um vestidinho branco e azul marinho babadinho que meu pai me deu que tinha um significado muito especial pois eram as mesmas cores da loja que o meu pai estava inaugurando e era um novo tempo. O significado aqui o quanto é importante as interpretações de texto e o amor, um ditado popular na internet: “falta amor e interpretação de texto”. Quem criou isso talvez deixou essa ordem por ser mais sonoro, mas confio na inversão das aditivas.

A primeira vez que tive contato com “Vidas Secas” de Graciliano Ramos foi no último ano da faculdade de Letras e o entorpecente quem deu foi a professora Beatriz, Doutora em Literatura Brasileira e uma gênia no assunto. Era um dos livros para análise em sala de aula e passamos um período esmiuçando seus significados em detalhes que eu nunca imaginei.

Colocamos lentes de aumento e vimos uma família muito pobre que não consegue fugir de um ciclo de escassez, submissão, analfabetismo. Essa vida redundante afunda a cada camada, e se prevê que os dois filhos, o menino mais novo e o menino mais velho, terão o mesmo destino, já que nem nome eles possuem. Fabiano, o pai desses meninos, não consegue formar palavras em sua boca para responder ou se defender. A construção de palavras que formamos para ser sermos compreendidos, ele não consegue. Então, numa conversa consigo mesmo, ele não diz que é um homem, mas um bicho, reflexo também do seu andar capengando como uma mula. No livro, a cachorra se chamava Baleia – um bicho com nome e os meninos não? O homem pelo bicho e o bicho pelo homem. Quando não temos argumentos, nos rebaixamos cada vez mais até assumir o que não somos.

É um estudo de caso interessante para se entender como curar a alma de um alguém, de uma família e de uma nação. Falo como alguém que cuida de vidas e esse livro me fascinou por entender com esta lente este livro. A palavra rara entre as pessoas seria “amei este livro” mas esta são as minha palavras. Eu entendi Vidas Secas e amei.  

REDATORA

Vandressa Holanda Gefali

Redação

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