como kerouac ou qualquer outro escritor

Eu não li nenhum livro de Jack Kerouac tampouco lerei. Vi de curiosa o filme de Walter Salles “On the Road” e concluímos eu e minha Irmã que a história era horrível. Mas, como das piores coisas eu olho além do visível, eu enxerguei naquele alter ego do filme a prazerosa fase dos materiais necessários para um escritor construir a sua obra.

Era um menino sem experiência alguma de vida que de repente se encontra numa jornada louca pela América para chegar à louca San Francisco – Califórnia, com um rapaz libertino e sua esposa jovem e pervertida. Usam diversos tipos de entorpecentes, encontram nisso experiências malucas que as drogas dão, e vivem de maneira dissoluta.

Ao ter todos os insumos, depois de um tempo de pesquisas e insights, anotações feitas com tocos de lápis e papéis como aqueles de pão de padaria, tranca-se o jovem escritor num quarto, e lá começa a escrever toda aquela experiência registrada. E, enfim, o livro finalmente é escrito.

Na vida de escritor é assim. Nesse ínterim desse ensaio, eu estou escrevendo minha primeira trilogia ficcional de batalha espiritual e profético. Todas as pesquisas durante esses treze anos pensando no que escrever, na verdade, favoreceram o tempo atual. Veja que a pesquisa de uma obra a ser escrita pode ser de longo prazo. Miguel de Sousa Tavares escreveu “Rio das Flores” em três anos. Para quem leu essa obra, sabe que está entrelaçada com a história de Portugal antes, durante e depois da segunda guerra mundial, e também com elementos da história interessantes demais, que só pesquisando os pormenores, ele pôde, creio, concluir a sua obra.

Há etapas para se fazer um bom, aliás, um ótimo livro. Um escritor nunca pode pensar no “está bom”, mas ele sempre tem que pensar no fim de tudo que “está excelente”. Se não existir animo que o faça balançar dentro dele, então o livro é uma verdadeira obra que arde, digno de fogueira. Isso para o término do trabalho, mas dentro do seu andamento, e entenda, ele deve ser construído com muito esmero, pois pode ser a obra de sua vida.

Aquele ânimo final do personagem alter ego de Jack Kerouac é o animo da Eureca necessária para se fazer uma obra. Enquanto isso não existir, apenas esboce, e esboce, reserve, deixe de molho, e, à medida do tempo, volte a pensar ao poucos. Querendo ou não, sabemos, por um extinto de escritor, que aquela obra finalmente pode ser escrita.

Bom, isso é uma definição, e eu acredito nela. Estou nessa fase. Você quer que o mundo cale a boca, a televisão, as redes sociais, os barulhos dos pagodes externos, as balbúrdias internas, os amigos, os conflitos… Tudo. Quando tudo se cala, a obra começa a ficar apurada, como um doceiro fazendo doce de amendoim. Tudo é um processo lento, detalhado, há um sabor do momento da quietude do leite no fogo cheio de açúcar que não pode parar de ser mexido com a colher de pau por horas e horas até que o leite se apegue firmemente no açúcar e fique com uma consistência “puxa”. Aquele chiclete é um sinal claro que é o momento de colocar o amendoim tostado e moído. Desliga-se o fogo, tudo é misturado rapidamente, e, à medida do olho, vê se há amendoim de mais ou de menos na mistura. E, finalmente, toda aquela massa é jogada na mesa de mármore, quente, fervendo, sendo esticada para os cantos, a fim de que se esfrie e possa corta-la em tabletes para todo o povo comer.

Assim é a obra de um escritor. Kerouac fez doce de cidra e não sabia.

REDATORA

Vandressa Holanda Gefali

Redação

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